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(Crédito da foto: www.santoscity.com.br)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

BRAILLE OU AUDIOLIVRO: O QUE É MELHOR?

Por: Débora Rossini 


Oooopa! A inspiração para o post de hoje veio da adaptação de um comentário que fiz no Facebook em um fórum de discussões, em resposta a uma internauta - e que acabei transformando neste texto! :-) 

O tema que estava em discussão é a questão da quantidade elevadíssima de erros ortográficos cometidos por parte de pessoas cegas, quando escreve - e uma internauta cega estava falando sobre isto, e alertando o restante da galera que não enxerga, para este fato, e incentivando o restante dos cegos a treinarem a escrita em português correto, para o próprio bem deles! 

Argumentei favoravelmente, dizendo o seguinte: ''[Tal fato tem explicação, principalmente] porque [os cegos] não treinam suficientemente o Braille, que é uma excelente forma de a galera que não enxerga saber como as palavras são escritas, treinar ortografia... analogamente ao pessoal que enxerga e aprende as regras de escrita por meio da leitura em tinta!!!"  Algumas pessoas curtiram o comentário.

Percebo, nos meus mais de 10 (DEZ!!!) anos que convivo e lido com diversas pessoas com deficiência visual, que esta tendência de abandono progressivo do Braille pelos próprios cegos vem aumentando em cada vez mais - sobretudo por causa dos avanços tecnológicos, do aprimoramento dos leitores de tela (sintetizadores de voz) de computador, dos audiolivros, etc. Os usuários sempre alegam que "é mais fácil, mais prático, etc". Noto que, embora faltem exemplares em Braille de diversos livros (sobretudo didáticos de ensino superior) , existem centenas de exemplares em Braille nas bibliotecas com obras de literatura ou didáticos para educação básica, e que... ficam ociosos, infelizmente! Olhem só o que escrevi num outro comentário sobre este tema, no mesmo tópico de discussões no Facebook: 

"Há alguns anos atrás, eu estava em uma biblioteca pública, observando os cegos que estavam em uma fila para fazerem empréstimo de livros... e todos os que eu vi queriam AUDIOLIVROS! 

E as estantes lá, abarrotadas de livros em Braille... pensei comigo: é, desse jeito a galera não vai fixar ortografia e outras regras gráficas de jeito nenhum... 

Em uma outra biblioteca pública, de outra cidade, vi livros NOVINHOS em Braille que nem tinham saído do pacote lacrado da fundação Dorina, e que já tinham sido adquiridos FAZIA já algum tempo. Perguntei para a responsável pelo acervo por que aqueles livros novinhos estavam ali sem uso, e ela respondeu: ''-É, a gente faz o possível para adquirir esses livros para o pessoal, mas eles não dão valor, não gostam de ler, não gostam de Braille e preferem os audiolivros.''

Fiquei pensativa com isso tudo... Depois, na hora de tentar um emprego, um concurso público, etc, [os cegos] vão ficar reclamando que não conseguem a vaga e pôr a culpa APENAS na discriminação contra cegos (quando na verdade a não-conquista da vaga é por não saber redigir um texto adequado, o que elimina também VIDENTES que também não dominem essa habilidade). Claro que não se deve negar que existe preconceito contra PcD no mercado de trabalho ; então, já que infelizmente é assim, aprender a escrever corretamente  é mais um motivo para a galera que não enxerga procurar se aperfeiçoar, e qualificar, ainda mais, a fim de se tornar mais competitivo que um candidato que enxergue, a fim de vencer o processo seletivo... ou seja, não dar mais motivo para que rejeitem, não é verdade? ;-) "  

Gostei de ver que teve gente que curtiu o comentário!

Notem que as pessoas que enxergam, além de exercitar mais a leitura (com os olhos) de livros, revistas e jornais (e, assim, visualizar como as palavras são escritas e organizadas, e consequentemente escrever corretamente), têm também contato constante com leituras (com os olhos) em telas de dispositivos eletrônicos, de placas ao redor, paineis, bulas de remédio, embalagens de produtos diversos, etc. No caso de pessoas cegas, por motivos óbvios, elas acabam não tendo essa estimulação ''ortográfica'' o tempo todo...

Imagino que você, leitor, deve estar se perguntando: ''-Ah, mas é inviável sair transcrevendo TUDO para o Braille... as letras ocupam muito espaço... a autora deste texto tá é 'viajando na maionese', kkkk! 

Meu argumento: Relaxa, querido leitor! Não é isso que tô falando, hehehe!!! Reconheço que há momentos, até mesmo por questões de espaço, de menor rapidez na leitura, de local onde a pessoa está, etc, em que fica difícil ler em Braille e a solução é o acesso ''por áudio'' das palavras, mesmo. :-) Mas, se a pessoa tem uma oportunidade de praticar a leitura e escrita em Braille, se tem livros (pode ser de literatura, mesmo!) à disposição, gratuitamente, nas bibliotecas (ou até mesmo podendo ter os próprios livros, fornecidos pela fundação Dorina Nowill e entregues pelo correio em sua casa!) por que não aproveitar essa chance, em vez de se limitar aos audiolivros? 
Em outras palavras: não tô criticando, de forma alguma,  um hipotético cego universitário que tenha de ler um livro cujo original em tinta tenha 800 páginas (imaginem o equivalente em Braille, heim? kkkkk) e queira OUVI-LO; uê, afinal, fica penoso para ele levar para lá e para cá o livro composto por vários volumes em Braille!!! Então, nesse caso, recomendo SIM o audiolivro equivalente. Mas se ele tá tranquilão em casa, lendo um best-seller para relaxar do corre-corre cotidiano, por que ele não pode ler em Braille mesmo?  

Por isso é que digo: não se trata de criar uma polêmica ''Braille versus recursos tecnológicos'', mas sim, adotar AMBOS os recursos como complementares! 

Vejam um outro exemplo disso: 
Imaginem um cego estudando matérias de Química. Tem aquele monte de desenhos envolvendo comportamentos e estruturas dos átomos e moléculas, modelos atômicos, estruturas moleculares, escrita de fórmulas, etc. Os atuais softwares leitores de tela não dão conta de ''ler'' isso tudo para o aluno cego!!! Como fazer? 
É aí que entra o Braille como recurso auxiliar: com o conhecimento da Grafia Química Braille para uso padronizado no Brasil, o próprio aluno,se tiver um livro didático em Braille, terá condição de, por meio tátil, entender tais estruturas e representações gráficas. Mesmo que ele não tenha um livro em Braille, se ele tiver monitor de auxílio ou um grupo de estudos de colegas que leiam os materiais didáticos em tinta para esse aluno cego, ele poderá tomar notas com sua reglete ou máquina Braille de forma a fazer tais representações em suas anotações - para posterior estudo. 

Para finalizar este longo texto: claro que sei que há cegos que têm dificuldades em aprender e praticar o Braille - como os que ficaram cegos por causa de diabetes (já que a doença, além de comprometer a visão, pode comprometer o TATO do paciente também!) Neste caso, é claro que o audiolivro acaba sendo uma opção mais apropriada... ;-) 

E então, galera que pertence ao clube dos que não enxergam? O que acham deste texto? Manifestem-se na seção de comentários!!! 


5 comentários:

  1. Excelente texto! Eu uso os dois, pois acho importante o uso desses dois mecanismos, para nós deficientes visuais. Como o a leitura do audiolivro é mais rápida, uso para adquirir conhecimentos; já o braile, faço uso de vez em quando, pra me ajudar a escrever corretamente.

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  2. Olá, eu sou a Fabiana mãe de uma princesa de 6 anos com deficiência visual, pretendemos apresentar a elas todas as possibilidades para a sua alfabetização, está um pouquinho atrasada, mas respeitamos o tempo dela. Parabéns por escrever e divulgar sobre esses temas, tão importantes para os que vivem nesse universo de deficiência visual.

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    1. Que bom que você gosta dos textos, Fabiana! Fico feliz com esse feedback positivo! Grande abraço! :-)

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    2. Que bom que você gosta dos textos, Fabiana! Fico feliz com esse feedback positivo! Grande abraço! :-)

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